Parece que o Zé descobriu o Youtube recentemente, mas na realidade são anos perdidos a ver coisas insignificante que, por um motivo ou outro, têm saltado dos confins da memória para o primeiro plano. E, num raro rasgo de vontade de fazer coisas, o Zé agiu. Levantou o rabo do topo da cristaleira, meteu-se na estrada e fez qualquer coisa pela vida.

Foi há uns anos que o Zé viu este vídeo do Borut Peterlin pela primeira vez. Na altura o primeiro pensamento foi "isto é parvo". Hoje essa continua a ser a opinião vigente, mas temperada com umas pitadas de "isto parece divertido" e duas colheres de chá de "que se lixe, deixa lá experimentar". Diz quem viu que o Zé parecia um puto numa loja de M&Ms. Folha após folha, não havia algodão que o saciasse, seringa que afogasse a voz que cantava na sua cabeça "só mais uma".

Não se preocupem, o Zé ouve muitas vozes, mas é um fofinho que é incapaz de fazer mal a uma mosca.

A abordagem foi similar à do Borut, mas mais simplificada. Aplicação de revelador localizado, espera, deixar escorrer e fixar. Repetir, repetir e repetir. Ao contrário do habitual, a repetição não nos traz melhoria mas diversidade. O acaso é um actor quase tão importante como o próprio Zé, mas não lhe digam nada porque ele tem um ego bem frágil e depois quem o atura sou eu.

Levem um pedaço de algodão, uma seringa, um cotonete ou outra forma qualquer para aplicar o revelador localmente e de forma tão controlada ou caótica quanto o vosso coração desejar, umas resmas de folha e umas horas para queimar no laboratório e saiam de lá com uma valente dor de pernas e uma mão cheia de coisas estranhas que só vocês é que vão apreciar. Mas pensando bem no problema derivado da questão, não é essa a vossa principal audiência?!

Peço desculpa pela tangente, esqueci-me do que queria dizer. Enfim, sejam simpáticos para o próximo e pelo amor de Cthulhu, usem phones quando ouvem música no comboio.



Não entendo o encanto das fotografias panorâmicas. Já tentei, mas sempre fiquei longe de entender a sua graça, ou de ouvi o seu apelo. Seja por não ter vistas grandiosas, amplas e magistrais no meu dia-a-dia, ou por considerar que a plasticidade de andar a coser imagens num software qualquer, este formato não me tem cativado.

Faz uns meses largos que vi um vídeo do Nick Carver, onde este fala sobre usar a sua 6x17 para fotografar uma cena na cidade. Não foram paisagens esplendorosas, ou localizações impossíveis. O tipo foi até ao parque de estacionamento da praia mais próxima e fotografou umas árvores.  Confesso que, por um lado fiquei curioso em experimentar, por outro raramente dou uso às minhas grandes angulares. Depois temos o preço pornográfico que uma máquina analógica de formato panorâmico custa. Então deixei a idea de molho.

Mas, eis senão quando, o Universo decide que eu devia mesmo experimentar o formato (isto é tudo balelas claro, mas precisava de uma justificação para gastar mais dinheiro na fotografia) e coloca um link para a Realitty So Subtle à minha frente. Uma pinhole de médio formato, a preço acessível, com formato 6x17? Tive de aproveitar claro. Dois meses depois (sim, o James só as faz de vez em quando) tive a oportunidade de, pela primeira vez na minha vida, fazer uma foto panorâmica. 

Para por este caixote a funcionar, primeiro é preciso superar os 12 trabalhos de Hércules. Depois é preciso carregar um caixote de acrílico mais um tripé, fotómetro e afins até ao destino. Tirar um curso em engenharia civil, para garantir que fica tudo nivelado ao milímetro, aplicar uns cálculos marretas para decidir qual a frame em que deveríamos estar e, se ainda sobrar energia, tirar uma foto.



São 4 por rolo e depois é preciso voltar à difícil tarefa de carregar um novo rolo. Eu disse difícil? Desculpem, queria dizer tortuosamente complicada, horrivelmente minuciosa, um castigo cruel e invulgar mesmo. Se não tiverem dedos anorécticos, preparem-se para uns longos e complicados minutos. Mas retirando isso da equação, a minha nova amiga é um gozo de usar. Para uma máquina esténoipeica tem uma definição bem interessante, afinal de contas os seus f233 foram minuciosamente furados a laser. O que a faz ser um pesadelo de carregar (plano de filme curvo) é o mesmo que faz com que a luminosidade entre os limites do fotograma e o seu centro seja tão equilibrada, o que é óptimo.

E no fim de contas, como foi a experiência? Foi muito interessante. As fotos saíram mais equilibradas do que pensava. Os guias de enquadramento no corpo do caixote resultam muito bem. Os seus 2 "obturadores" funcionam lindamente. Continuo sem entender o encanto deste formato, mas que tem sido divertido andar à sua procura, lá isso tem.
Piodão, a aldeia presépio, localizada no concelho de Arganil, na serra do Açor, foi o local do nosso último retiro.



Nascido Kotobukiya da família Yotsubato, Zé adoptou este novo nome quando trocou o Japão por Portugal.

O Zé é um rapaz de gostos simples. Fica fascinado com alguns temas da vida, avassalado com outros. Com a curiosidade nos olhos, o Zé vai conhecendo este nosso cantinho, aprendendo, crescendo e ficando desiludido um dia de cada vez.

Chegou a Portugal cheio de certezas, mas a cada dia que passa vê-se obrigado a reavaliar as suas ideias e convicções.

Quando a mim, aprendi que três vezes "este fixador ainda dá para mais uma" é uma vez a mais.


Nada dito.
Nada feito.
Nada pensado.
Nada conseguido.
Nada tentado.
Nada.

 

Sobreiros "domesticados" preparados para serem descascados. Sobreiros queimados há mais de 10 anos que ainda envergam as suas cicatrizes. Castanheiros imponentes e orgulhosos da sua solidão e Eucaliptos cientes que a força vem dos números. 

Sai para registar a aldeia e acabei perdido pelos caminhos da Serra. Acompanhado por um filho da terra, numa visita guiada pelo que foi há decadas atrás. Estradas formadas a picaretas, caminhos que já não são muito trilhados e locais "ali depois da levada" onde em tempos existiram moinhos, currais, sitios porreiros para apanhar uns peixes e locais onde as buxas dançavam de noite.


 

Que contes muitos e bons.


Tem sido assim nos últimos tempos, e no caso desta tarde de Verão antecipado, literalmente.

Valem as companhias, que nos elevam o dia.



História mais antiga de sempre:
- Rapaz conhece rapariga
- Rapaz apaixona-se pela rapariga
- Ambos convencem os amigos a pintar a casa da avó da rapariga



Estou sem palavras para partilhar.






Copyright © Rui Pedro Esteves 2017 Direitos Reservados
Podiam ser aulas de culinária, mas ao invés foram dias a aprender as bases práticas dos processos de impressão em papel salgado e albumina.

Numa viagem ao século XIX em que visitamos os processos do Sr Talbot e do Sr Blanquart-Evrard, salgamos, albuminamos, sensibilizamos, fomos mestres do pincel e do secador, imprimimos e lá pelo meio rezamos um pouco para que no final uma imagem se formasse e fixasse. No entanto, sobre a orientação dos nossos formadores, todas as imagens foram um sucesso. 

Dois processos algo trabalhosos mas bastante interessantes no final. Dois processos que nos trazem mais próximos às imagens produzidas. Abraçar a perfeição na imperfeição é essencial para que se retire satisfação do produto final. Mas terminada a trabalhosa preparação, ultrapassada a eminente frustração é difícil não sentir uma enorme satisfação ao ter nas mãos algo único, orgânico e tão unicamente nosso.

Incrivelmente ninguém saiu tatuado com nitrato de prata. Agora é tentar reproduzir estes sucessos e construir sobre eles.

Obrigado Magda e Domingos, foram fantásticos.


Mais uma tarde passada em boa companhia, algures entre a Golegã e a Almeirim, com direito a passagem na Chamusca. Uns momentos de descontracção depois de visitada a Casa-Estúdio de Carlos Relvas.

Uma última tarde bucólica antes da chegada do Inverno. Imagens perdidas no caos caseiro e recuperadas por acidente.